Pular para o conteúdo principal

Postagens

Black Wednesday

Mais um vinte de tantos novembros que já se passaram desde a morte de Zumbi dos Palmares, desde a abolição da escravatura em 1888. Mais um vinte de tantos novembros que virão e ainda nada resolvido nas relações brasileiras com a escravidão de negros, prática estendida para todos os pobres de um modo geral. Mais um vinte de novembro e eu aqui escrevendo mais uma crônica sobre o assunto longe de dizer que enfim, somos todos iguais, enfim prenderam quem mandou matar Marielle. A igualdade entre humanos parece mesmo ser uma utopia a ser perseguida, uma utopia que dá sentido à vida daqueles que acreditam, como eu, que viver fica muito mais fácil e saboroso quando respeitamos nosso semelhante. Semelhante. Palavra difícil nestes tempos distantes dos lançamento das idéias de Cristo. Se somos todos iguais perante a Deus, os humanos fazem questão de mostrar diariamente que não somos iguais perante a nós mesmos. Pra quem foi criado sob os costumes da casa grande é muito difícil entender a...

HOJE A FESTA É NOSSA

Hoje à noite quando eu subir no palco do Teatro Rival – Petrobrás  nāo  vai ser como as outras vezes que cantei por lá em trabalhos anteriores. Lá estive pela  primeira vez como autor  da trilha de  um musical  escrito   pelo   meu querido parceiro Nei Lopes  e  com  direção do grande ator Haroldo De Oliveira.  Foi  o “Oh! que delícia de negras”, espetáculo engajado abordando o racismo no Brasil. Depois foram atuações como músico em shows de Martinho da Vila, o show “Vila Isabel dá Samba”, junto com  Agriāo ,  Mart’nália  e Luiz Carlos da Vila, os lançamentos do “Coisa de Chefe”, “Matrizes”, com Luiz Carlos da Vila,  “ Amigo de fé”, “Ismael Silva, uma escola de Samba”, junto com Augusto Martins e outros que no momento que escrevo me fogem à memoria. Embora intimo do palco do Rival ,  a noite de hoje vai ser muito diferente. Estarei em cen a completando 70 anos e na  platé ia ...

KIZUMBA

                                                 Foto:  Clóvis Scarpino Em algum momento do final dos anos 70, se nāo me engano (tenho que abrir todas as caixas de relíquias para conferir), eu, Dalmo Castelo, Jorge Aragāo, Luiz Carlos da Vila e Wilson Moreira nos juntamos para fazer um show. A ideia surgiu nos inúmeros papos que tivemos eu e o ator e diretor Haroldo de Oliveira, lá no Restaurante Amarelinho da Cinelândia, quando passávamos horas tomando umas e debatendo sobre negritude, racismo, politica, música, novelas e afins. Viajamos tanto na maionese que começamos até um projeto de montar um negócio de produtos de beleza para negros, na época um pensamento totalmente absurdo, provocador. Das muitas i...

Parabéns Sérgio Cabral

Hoje é aniversário do Sérgio Cabral. Por infelizes motivos tenho que usar aquela nota de esclarecimento, o pai. Mas o fato é que o pai foi amigo do meu pai e do meu avô que incentivaram o Sérgio no início da carreira de jornalista, em 1957 no Diário da Noite.  Quando me tornei músico profissional meu contato com ele se amiudou em vários encontros, festas, shows, programas de TV e etc. Sérgio Cabral é um nome importantíssimo para a cultura do Rio de Janeiro, para a música, para o jornalismo e principalmente para o samba. Escritor, pesquisador, compositor, biógrafo, produtor de discos e shows, tudo ligado ao que há de melhor daquilo que chamamos de alma carioca. Um carioca suburbano, de Cavalcanti, que fez inclusive papel de garçom, à vera, num show de João Nogueira, servindo para os músicos cerveja e os deliciosos salgadinhos produzidos pela esposa do Cuscus, percussionista do grupo do Joāo. Tive o prazer de participar deste show no antigo Teatro da Galeria no Flamengo. Sérgio foi g...

Da boêmia ao fundo do poço.

Aí fomos os quatro a Vila Isabel tomar umas e fazer uma visita solidaria   à esquartejada estátua de Noel Rosa no início do Boulevard 28 de setembro. Não havia sobrado nada a não ser as pilastras que a cercavam. Se já estávamos indignados com o que vem acontecendo com a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro como um todo, o vazio da praça serviu para constatar aquilo que a gente vem evitando admitir. Estamos chegando no fundo do poço. É óbvio que temporais, enchentes, desabamentos e violência contra tudo e todos, vinda de vários setores, são assuntos de primeira ordem, mas nossa memória cultural e símbolos afetivos também fazem parte de nossas vidas. Nós boêmios e artistas cariocas, frequentadores do bairro de Vila Isabel há décadas, não conseguimos ver o vazio da praça e nāo ter algum tipo de reação. Nos sentimos atingidos no espaço físico e na memória cultural e musical do bairro que ajudou a formatar nossa arte. Zumbi do...

Renascer é preciso

  E o Brasil se reinventa após a autoproclamação de Zé de Abreu como Presidente da República. Alegoria típica de carnaval onde o Rei Momo baixou nos brasileiros e realizaram no início da festa, em todo o Brasil, aquilo que todos nós esperávamos que acontecesse, mas não acontecia. O povo foi pra rua protestar contra Bolsonaro.  Durante o carnaval duas perdas dolorosas e emblemáticas serviram também para nos lembrar de nossa inexorável finitude. Partiu Arthur, neto de Lula, partiu Alfredinho Bip- Bip , pai de todos. A prematura partida de Arthur possibilitou ao avô respirar um pouco de ar puro acompanhado por gritos, aplausos, solidariedade e emoção em doses cavalares. A surpreendente partida de Alfredinho acontece no maior evento ao ar livre do planeta, festa para a qual sempre contribuiu. Alfredinho sempre esteve ao lado tudo de bom que acontecia nessa cidade. Era um admirável militante de esquerda, era um ser humano incrível, doce, alegre, escondid...

A CHAMA NĀO SE APAGOU 2

Minha alma chora vendo o Rio de Janeiro. Minha alma suburbana canta um choro triste com o incêndio do Museu Nacional. Durante longas horas a chama nāo se apagou e eu acordado assistindo minha curiosidade de infância sendo queimada numa imensa fogueira porque, de imediato, faltou água para apagar o incêndio. Para o que já estava queimando, essa água nem seria boa para as peças que lá estavam, mas evitaria o deslocamento do fogo para o resto do prédio. Minha alma suburbana chora lembrando dos passeios no Campo de Santana, dos piqueniques na Quinta da Boa Vista, das idas ao Jardim Zoológico e das visitas ao Museu Nacional.  O choque de realidade que vivemos neste 2 de setembro de 2018 foi muito duro. Ficamos sabendo, por exemplo, que há acordos entre os museus e o Corpo Bombeiros, pois o que manda a lei sobre normas de segurança nāo pode ser cumprido porque existem as questões de tombamento que impedem que sejam realizadas determinadas obras em prédios históricos.  Caram...