Pular para o conteúdo principal

Black Wednesday


Mais um vinte de tantos novembros que já se passaram desde a morte de Zumbi dos Palmares, desde a abolição da escravatura em 1888.
Mais um vinte de tantos novembros que virão e ainda nada resolvido nas relações brasileiras com a escravidão de negros, prática estendida para todos os pobres de um modo geral.
Mais um vinte de novembro e eu aqui escrevendo mais uma crônica sobre o assunto longe de dizer que enfim, somos todos iguais, enfim prenderam quem mandou matar Marielle.
A igualdade entre humanos parece mesmo ser uma utopia a ser perseguida, uma utopia que dá sentido à vida daqueles que acreditam, como eu, que viver fica muito mais fácil e saboroso quando respeitamos nosso semelhante.
Semelhante. Palavra difícil nestes tempos distantes dos lançamento das idéias de Cristo. Se somos todos iguais perante a Deus, os humanos fazem questão de mostrar diariamente que não somos iguais perante a nós mesmos.
Pra quem foi criado sob os costumes da casa grande é muito difícil entender as expectativas de quem vive tentando fugir da senzala moderna na direção do paraíso de Palmares.
Essa fuga se realiza de várias maneiras e a cada dia a quantidade de “escravos fujões” só aumenta. Sim “escravos fujões”, é assim que o povo negro é visto por muitos racistas espalhados pelas instituições, pelo congresso, pelas escolas e universidades, pelos estádios de futebol, instalados nas polícias, no judiciário, nas repartições, nas empresas, no executivo e etc.
Enquanto esse “mi mi mi” for só nosso a luta continua. Quando for de todos os brasileiros o vinte de novembro será festa nacional com muita música, dança, comida, alegria, essas coisas que insistimos em praticar para o desespero dos “homens de bem”.
Alegria e bom humor, talento e competência, orgulho e fé, são nossas ferramentas preferidas no combate aos que insistem em nos impor o passado explícito na cor de nossas peles, mas essas ferramentas usamos  o ano inteiro. Hoje vinte de novembro do ano de 2019, prefiro comemorar fazendo uma reflexão mais aguda, mais realista, nossos dias estão pedindo isso.
Os índices de violência estão aí mostrando qual camada da população é o alvo principal do preconceito. Os índices estão aí mostrando a disparidade das remunerações entre brancos, negros e mulheres.
Os índices que revelam a juventude negra assassinada nas periferias diariamente também estão aí pra denunciar um genocídio em marcha. As manifestações públicas de racismo saíram do armário e também estão aí junto com a intolerância religiosa, coisa da antiga.
Essa é uma ladainha nossa que se repete a cada vinte de novembro, a cada 13 de maio, desde o primeiro navio negreiro que aqui chegou até o noticiário contanto dos tiros dos helicóptero sobre as favelas.
Os mínimos avanços conquistados em doses homeopáticas não têm como voltar atrás, é verdade,  e a cada brecha é mais um milésimo gol fazemos.
Neste vinte de novembro um fraterno beijo em meus amigos negros que a cada dia contribuem para a liberdade plena de nossa história. Neste 20 de novembro meu fraterno beijo nos meus amigos “brancos” que se esforçam sinceramente para entenderem nossa questão existencial num primeiro momento e, num segundo passo, se alinham à nossa luta. Valeu Zumbi!!!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

E lá vamos nós mais uma vez. Dessa vez, Guilherme Reis.

Uma jornalista comentou comigo outro dia que costuma ler minhas crônicas emocionadas no meu blog cada vez que um amigo meu parte para o andar de cima. Fiquei grilado com isso, afinal, não foi para lamentar a partida de meus amigos que eu criei um blog. Então neste dia resolvi que nunca mais escreveria quando um amigo meu morresse. Putz! Mas quem morreu foi o Guilherme e aí não dá pra não falar nada porque ele tem tudo haver com os outros que partiram antes – Paulinho Albuquerque, Luiz Carlos da Vila e Ovídio Brito. Meu orientador espiritual também me aconselhou a me desapegar dessa minha inconformação com morte. Acatei o conselho e dessa vez o tom não vai ser de inconformação. Será só tristeza, mas como o Guilherme era um cara de uma alegria confortadora, a alegria também estará presente neste meu lamento. Situar o Guilherme Reis no plano profissional é fácil. Ele foi o melhor técnico de mixagem que conheci e tive o prazer de trabalhar. Premiado, era um artista no que fazia, herdei...

O Méier baixa na Lapa e leva o caneco

Ontem, 20 de janeiro de 2008, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, foi uma noite realmente especial para nós do Bloco dos Cachaças. Nascido de regados encontros no bairro do Méier, subúrbio carioca, na casa do casal Diniz (Mauro e Claudia), o bloco cresceu e passou a reunir uma galera em deliciosa feijoada domingueira num sitio em Jacarepaguá.. Passeio tipicamente suburbano e familiar, uma onda totalmente Muriqui ou Paquetá, que reúne músicos, jornalistas, sambistas, crianças, e boêmios de um modo geral, uma boa parte embarcados em vans vindas dos quatro cantos da cidade. Ao vencermos na noite de ontem o concurso de marchinhas da Fundição Progresso foi como a confirmação do batismo do Bloco feito por nossos padrinhos Zeca Pagodinho e Marisa Monte. O bloco dos Cachaças, enfim, saúda a imprensa falada, escrita, “blogada”, televisada e pede passagem. Pede passagem para no embalo de sua marchinha, “Volante com cachaça não combina”, engrossar esse cordão que cobra m...

Matura idade.

Enfim, faço sessenta anos neste 3 de outubro de 2009. Não são aqueles anos intermediários entre a juventude e o início do fim, tipo quarenta ou cinquenta. São sessenta anos, meus camaradas. Ao contrário do que eu mesmo poderia imaginar, não vou lançar CD comemorativo, não vou fazer show comemorativo de idade e não sei quantos de carreira, nem vou fazer nenhuma roda de samba. Também não vou receber os amigos no Bar Getúlio, como pensei em algum momento. Minha comemoração dos sessenta vai ser em família, fora do Rio, na calma. Vai ser desse jeito porque ao longo destes anos todos desenvolvi uma arte que aprendi com meu pai que foi a de fazer amizades e comemorá-las, frequentemente. Entre tantas que cultivei em todo esse tempo, além de minha mãe, duas não estão mais por aqui – Paulinho Albuquerque e Luiz Carlos da Vila. Um festão de sessenta anos sem eles, é choro meu na certa. Além disso, eu teria que estar com uma grana que anda meio fugida de mim, para não deixar amigo nenhum sem ser c...