17/01/2018

O povo brasileiro no banco dos réus da segunda instância.




Ontem foi uma terça feira muito interessante deste início de 2018, o ano que vai decidir o futuro do Brasil.
Pela primeira vez fui convidado a participar de um encontro de artistas e intelectuais com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lá no tradicional Teatro Casa Grande.
Achei engraçado eu nāo ter me atentado antes para o peso simbólico do nome daquela casa de espetáculos.  Afinal, da casa grande saiu toda a história da dominação da senzala, mas ao contrário da casa grande, o Teatro Casa Grande sempre foi o espaço das demandas da senzala. Contradição igual a do 
restaurante chic em Sāo Paulo chamado Senzala, que pode ser visto como um espaço de  demandas da casa grande.
Mas o dia ontem foi interessante porque na correria esqueci o celular em casa, pra completar, fui ao evento sozinho, e os poucos conhecidos que por lá encontrei sentaram em lugares diferentes.
Entāo fiquei só, sem nenhum tipo de interferência, sem filmar, sem fotografar, sem selfs, sem conferir as redes, sem papear, entregue aquela imersão no mundo da esquerda petista ansioso para ouvir Lula de pertinho pela primeira vez.
Com o Tomás Miranda entoando à capela  “Senhora de Liberdade”, de Wilson Moreira e Nei Lopes, o evento seguiu com a explanação de um advogado sobre o processo que condenou Lula em primeira instância. Queiram ou nāo queiram, todo o processo é um absurdo, um tremendo nonsense,  uma aberração em relação as leis, ao comportamento do judiciário e a Constituição.
O Teatro Casa Grande virou senzala ao longo dos discursos que se seguiram, com a consolidação do pensamento de que o maior problema brasileiro, daqueles que nós mesmos podemos resolver,  passa pelo entendimento da herança da escravidão de negros africanos e o racismo vigente no Brasil naturalmente decorrente desse processo. Esse pensamento nunca foi tāo claro na esquerda como agora e eu me lembro de velhos militantes negros do passado insatisfeitos com a postura antiga.
Essa nova postura foi  ontem veementemente confirmada nāo só pelas negras empoderadas Elisa Lucinda, Conceição Evaristo, MC Martina,  mas também pelo Chanceler Celso Amorim, com todas as letras.
Do encontro de ontem saí com a confirmação da certeza que já tenho, desde que me entendo por gente, que o órgão que sempre atrapalhou, por vários motivos, por vários métodos,  a melhoria das condições da maioria do povo e a soberania do país  é a TV GLOBO e seus tentáculos, claro que com os parceiros atuais da casa grande.
A imensa senzala disfarçada que é o Brasil de hoje, nunca será o Brasil do amanhã enquanto o poder da mídia nāo for regulado. Que se copie o modelo americano, como gosta tanto de fazer a casa grande. Este é um dos motivos pelo qual o PT foi apeado do poder.
Entre vários discursos brilhantes,  eu destaco o de Elisa Lucinda, concordo com tudo, inclusive com a sua afirmação de que Lula foi o Presidente mais preto que conseguimos até aqui. A fala de Márcia Tiburi, por propor uma militância menos rancorosa, com a qual também concordo. O do Gregório Duvivier, que teve a coragem de confessar que nāo sabia se iria votar no Presidente, irá depender de que tipo de alianças Lula irá fazer, mas que estava ali defendendo o direito de se disputar a eleição.
Com esse último, infelizmente nāo concordo. Ainda nāo há no Brasil condições de uma única corrente assumir o poder sem que se faça algum tipo de acordo com Deus ou o diabo na terra do sol. É utópico pensar que mesmo com toda a esquerda reunida em torno de Lula, haja condições de se ocupar o poder pelas vias democráticas, pelo voto, pela liberdade de expressão que vale para todos os matizes, pelo caminho da paz, pelo respeito a lei, sem que se faça alianças com alguns setores. É o que temos pra hoje. Ou se vota em Lula sem nenhuma dúvida pra Presidente em 2018 ou viveremos o amargor de um mané qualquer assumir o poder  e ver perpetuado por décadas o desastre que o golpe está nos impondo agora.
Como sempre, o discurso de Lula foi mais uma catarse, uma confirmação de seu poder de oratória mesmo nos assuntos mais espinhosos.  Destaco a comparação que vez associando o golpe a uma cirurgia. A anestesia (as mídias e o mau uso da Lava Jato) foi aplicada (o golpe) no paciente (o povo, o PT) e o efeito só agora começa a passar.
Saí do Teatro Casa Grande feliz com o que vi e ouvi. Nāo fosse eu prezar tanto minha independência, pensaria em me filiar ao partido que mais cresceu  sob o ataque da mídia e do judiciário.
Saí de lá também com a esperança renovada de que a esquerda ainda vive um
aprendizado e o novo golpe faz parte dele. Lula encerrou mandando uma mensagem: “Estou no jogo”. É isso. O campeonato nāo acabou. Dia 24 de janeiro tem jogo. Entāo joga o jogo jogador, estaremos no banco.


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