20/11/09
Valeu Zumbi!!!
Com este grito encerramos na madrugada do dia 20 o show feito em homenagem a Luiz Carlos da Vila promovido pela Prefeitura de Nova Iguaçu.
Milhares de pessoas na praça, dezenas de artistas amigos do Luiz, todos cantando e se emocionando, mesmo fora do palco. Tudo do jeito dele, com muita alegria, samba e cerveja gelada.
Valeu Zumbi, saudação cunhada pelo Luiz no samba enredo da Vila Isabel de 1988, deve estar sendo gritada muitas vezes por este país afora nestas comemorações do dia da Consciência Negra. Neste momento em que escrevo estou em Mauá, São Paulo para atuar num show de praça, integrando a banda do Martinho da Vila, numa comemoração deste dia de graça.
Gostaria de escrever aqui algumas coisas relativas ao assunto. Estou sem tempo, mas não posso deixar passar em branco este dia sem dizer que sou a favor das cotas, que o racismo no Brasil é muito louco por ser um país de miscigenados, que as lutas para acabar com o preconceito e a descriminação não deveriam ser lutas só dos negros, mas de todos os brasileiros, entre outras coisas.
Aproveito o dia para saudar a todos aqueles que vieram trabalhando até aqui por uma sociedade brasileira mais fraterna em relação as diferenças e anexar a este blog um belíssimo depoimento que recebi de um amigo onde Chico Buarque fala sobre as questões raciais no Brasil. É isso. Valeu Zumbi.
http://www.youtube.com/watch?v=sD2sjAw9mlM&feature=player_embedded
11/11/09
O primeiro CD do filho único ninguém esquece
É engraçado ver essa história acontecer com ele, história que eu vivi no tempo da vitrola quando era LP e eu lancei meu primeiro disco pela Odeon em 1980, ano em que nasceu o Gabriel.
Em 1980 as coisas eram ao mesmo tempo mais difíceis e mais fáceis, diferente de hoje onde as coisas são mais fáceis e mais difíceis.
Explicando: as gravadoras tinhas os estúdios, a tecnologia, a prensagem, a edição e a distribuição.
Era um funil onde poucos chegavam para gravarem seus trabalhos. Havia espaço para o mais comercial e o mais cultural. As gravadoras vendiam discos populares para bancarem os da MPB e tudo mais. O samba bancou muito a edição de vários outros estilos.
Hoje as gravadoras estão mudando de negócio, qualquer um pode gravar um disco, há um home studio em vários quartos de empregada por aí. Prensar ficou fácil, estamos em plena era dos patrocínios, mas a divulgação e distribuição continuam sendo um privilégio das majors e grandes selos.
Não encontramos até hoje, para a produção independente, uma solução para isso neste momento em que, tudo indica, a mídia CD vai tirar o time. Só Deus sabe. Me desculpe aqueles que não acreditam nele.
Então Gabriel Versiani chega ao mundo do disco – era inevitável sendo filho de cantora (Cláudia Versiani) e músico - com um SMD autoral de um jeito que parece ser o do futuro daqueles que pretendem ser artistas nas próximas décadas. Me foi possível escolher a profissão de músico e viver exclusivamente dela até aqui. A partir daqui já começo a mudar a direção do navio que é a minha vida porque acho que essa atividade como profissão está acabando, mas essa é uma outra história.
Gabriel já começa na frente dividindo o palco com o computador na sua profissão de jornalista, com emprego, carteira assinada e tudo mais. É o futuro, e acho que ele é promissor para o meu filho.
Deixo de lado a modéstia e canto com a minha viola, meu filho manda bem nas duas posições.
Quem o acompanhar daqui pra frente verá. Quem já ouviu o disco se surpreende com um repertório não alinhado a qualquer modismo. É eclético, jovem, moderno, com uma inegável base de informação musical e cultural.
Tá bom. É o pai lambendo a cria, isso não vale né?
Então vamos combinar uma coisa: você vai lá no Centro Cultural Carioca no dia 17 de novembro conferir. Se você não gostar eu pago a tua conta. Fechado? Até lá.
PS: eu vou dar uma canja dividindo com ele umas canções do meu disco Amigo de fé.
09/10/09
Puta que pariu!
Realmente o ser humano é phoda!
Existe coisa mais troglodita do que a NASA bombardear a lua para saber se tem água por lá? Fico imaginando os ETs (tomara que existam mesmo) assistindo a essa cagada universal do ser humano.
Outra coisa: a lua é dos americanos mesmo, né? Porque eles não me perguntaram porra nenhuma se podiam dar esse tiro no que eu imaginava ser a nossa lua.
Meus Deus, onde estará São Jorge a uma hora dessas com sua romântica lança, montado e seu dragão?
Pra completar a confusão o Barack Obama ganhou o Prêmio Nobel da Paz. É muito doido e realmente eu acho que ao mesmo tempo que as coisas melhoram, o ser humano vai ficando cada vez mais um “babaca monumental”, como diz minha amiga Maria Luiza Busse.
02/10/09
Matura idade.

Enfim, faço sessenta anos neste 3 de outubro de 2009. Não são aqueles anos intermediários entre a juventude e o início do fim, tipo quarenta ou cinquenta. São sessenta anos, meus camaradas. Ao contrário do que eu mesmo poderia imaginar, não vou lançar CD comemorativo, não vou fazer show comemorativo de idade e não sei quantos de carreira, nem vou fazer nenhuma roda de samba. Também não vou receber os amigos no Bar Getúlio, como pensei em algum momento. Minha comemoração dos sessenta vai ser em família, fora do Rio, na calma.
Vai ser desse jeito porque ao longo destes anos todos desenvolvi uma arte que aprendi com meu pai que foi a de fazer amizades e comemorá-las, frequentemente. Entre tantas que cultivei em todo esse tempo, além de minha mãe, duas não estão mais por aqui – Paulinho Albuquerque e Luiz Carlos da Vila. Um festão de sessenta anos sem eles, é choro meu na certa.
Além disso, eu teria que estar com uma grana que anda meio fugida de mim, para não deixar amigo nenhum sem ser convidado, com boca livre, porque esse negócio de cada um levar a sua bebida não é negócio de pobre, não é negócio de malandro. Malandro e pobre convidam e dão banquete.
Agora, isso não quer dizer que daqui até o dia 3 de outubro de 2010 não estarei comemorando minha matura idade todas as vezes que encontrar meus camaradas pra tomar umas, é claro.
Comemorações à parte, o que mais está me mobilizando neste momento são as reflexões, o balanço de vida, essas coisas que tenho certeza não vão me levar a conclusão nenhuma, mas elas tem insistido neste último ano em ir junto comigo para o travesseiro.
O que eu fiz esse tempo todo da minha vida? É a pergunta mais presente e a resposta é “quase nada”. Essa sensação de que sessenta anos não combinam com minha relação tempo-espaço é uma loucura. É como se eu estivesse esse tempo todo esperando começar o segundo tempo e ele tá começando agora. Mas isso também é uma loucura, porque aos quarenta e cinco do primeiro tempo eu já me sinto querendo começar a dizer, hum! tô cansado. Enfim, fazer sessenta anos é mesmo uma loucura.
Minha vida até aqui foi um primeiro tempo relativamente fácil, jogando naquela posição tipo Gerson, centrando pra li, lançando pra lá, fazendo este trabalho de meio campo que eu sempre gostei de fazer. Nunca tive vocação pra goleiro nem pra ponta de lança. Nessa pelada acho que consegui realizar talvez cinqüenta por cento do que eu ambicionei algum dia. Confesso que a perspectiva de um segundo tempo, e se tudo correr bem, com prorrogação e disputa de pênaltis, está me deixando, na boa, morrendo de medo.
Primeiro porque se a idade lhe dá um pouco mais de calma em relação ao entendimento dos outros, ou das contradições da humanidade e do sistema em que vivemos, te dá também uma autoridade, vinda não sei de onde, que lhe permite virar para qualquer “autoridade”, em qualquer assunto e solenemente soltar um “foda-se” na cara dele, sem o menor constrangimento.
Segundo porque já começo a perceber os olhares, as palavras, as mensagens do tipo vai pra casa coroa botar o pijama e deixa o mundo para os jovens. Senti muito isso agora quando recebi os boletos bancários do meu plano de saúde. Ele triplicou de preço por causa dos sessenta anos. Que dizer, o meu plano de saúde, no fundo, tá querendo que eu morra.
Fico comparando minha juventude com a de agora, do meu filho, e vejo, que neste aspecto, meu amigo Hugo Sukman tem razão: o Brasil melhorou.
Agora que já posso usar essa expressão, no meu tempo, quando eu e meu parceiro Ivan Wrigg fazíamos uma música, no dia seguinte a gente ia lá no DOPS, na Praça Mauá, levar pra censura liberá-la, pra gente cantar pelas esquinas ou nas festinhas dos amigos.
No meu tempo, não tinha negro beijando branca na novela, nem estrela principal tipo Thaís Araújo.
No meu tempo uma pessoa de sessenta anos era um velho mesmo, não tinha como disfarçar, como nós hoje que temos a cara de pau de usarmos as mesmas roupas e cabelos dos jovens, quando ainda os temos. Hoje freqüentamos as mesmas academias de ginástica e ainda nos livramos do pavor de perder o direito de praticar o melhor esporte da humanidade, graças a umas pílulas coloridas que os caras inventaram por aí.
Mas qual é o meu tempo? O tempo que passou? E esse que vem agora pela frente, é de quem? Não é meu também? Então tá tudo errado. Enquanto estivermos vivos é o nosso tempo. Então o mundo vai ter que me aturar. Não sou elefante, não saberei a hora de tirar o time. Os meus sonhos não realizados continuarão a ser meus sonhos. Talvez o meu caminho mude muito daqui pra frente, por conta de uma curva que estou tentando fazer no navio que é minha vida, mas nunca amigo meu me verá na praça jogando xadrez. Mas provável é me encontrar de taco em riste numa sinuca qualquer da cidade tentando dar uma surra no Yamandu (rsrs).
Este é o sentimento que estou e dou de presente nestes sessenta anos a todos aqueles que curtiram a vida comigo até aqui. Um beijo especial pra minha mulher que faz aniversário na mesma data que eu.
A propósito, aprendi na novela “Com a minha nas Índias” que na Índia o cara faz sessenta anos e comemora um renascimento. Legal né? Mas a mulher dele tem que comemorar também como se ela fizesse sessenta junto. Minha mulher já falou que tá fora dessa.
Um beijo pra Mauro Diniz, Rodrigo Campelo e Sérgio Carvalho que fazem junto com a gente também.
Pra terminar, velhinho é puta que o pariu. Beijos.
01/05/09
Algumas coisinhas ainda totalmente não digeridas.

Definitivamente o Brasil tem algumas instituições que são intocáveis, uma delas é o Flamengo. É o time da maioria, o time da maioria dos locutores de futebol, da maioria dos políticos, da maioria dos artistas, o time das capas pra vender jornal, então ai de quem contrariar essa massa. No episódio da foto acima, onde o juiz teve medo de expulsar o Juan, pensei numa historinha ao contrário:
O neguinho Maicosuel chuta a canela do Juan depois de levar um drible espetacular. Não satisfeito, coloca-se por cima do jogador tombado e manda um monte de desaforos na orelha dele. Deixo por conta dos meus três leitores completar a sequência dos fatos.
Agora eu tô entendendo porque meu saldo bancário está sempre no vermelho e a cultura, saúde e educação não têm dinheiro pra nada. É por conta de mais uma despesa extra que eu não sabia que tinha: as passagens de mulheres, amantes, filhos, empregados e garotas de programa que nossos queridos parlamentares precisam para o bom exercício de seus mandatos. Sacanagem. Eles podiam pelo menos colocar isso no nosso extrato bancário, só por uma questão de controle. Quem sabe a gente pudesse até deduzir isso do imposto de renda, né?
03/03/09
Prazeres totais


05/11/08
Obama nas alturas

Anos antes eu estava na Ilha do Sal em Cabo Verde e acordei com o volume da televisão mostrando o ataque de onze de setembro. Naquele dia o povo americano mudou e todo o mundo mudou junto.
Eu já pressentia que seria possível o Barack Obama ganhar essas eleições só não sabia que milagre ia fazer isso acontecer.
Afinal, os negros nos USA são minoria, pouco mais de 12% da população. Todo negro que se atreveu a romper a linha do comportamento e liderar movimentos, foi assassinado, além da convivência com o terrorismo das Klu Klux Klans da vida, ou da morte, melhor dizendo.
Por outro lado, a sedução que o Barack exerceu sobre quase todo o planeta foi uma coisa incrível. Pela primeira vez a expressão "Presidente do Mundo" se encaixa de forma exata. Quase todo mundo torceu por essa vitória.
Estava quieto no meu canto vendo todo os jornais da TV, curtindo esse momento que estou tendo o prazer de assistir, quando abro meus e-mails e encontro meu amigo Itamar Assiére querendo saber a minha opinião sobre isso tudo.
Eu estava pensando em fazer isso mais tarde, com calma, analisando os fatos, a história. Refletindo antes sobre essa incógnita que sempre me acompanhou de não entender, de não aceitar o porque dos povos africanos e seus descendentes terem uma vida tão complicada nessa passagem da humanidade pelo universo.
Eu vou fazer toda essa reflexão depois, mas para não deixar meu amigo esperando, lá vai.
Puta que pariu!!!! Caramba!!!!!!! Finalmente um negro na presidência de uma grande potência mundial.
Viva a mãe americana e o pai queniano do Obama que passaram por cima dos preconceitos para viverem um amor e dele nascer o fruto ontem eleito presidente.
Viva o novo povo americano nascido da mistura de tantos seres humanos diferentes que para aquelas terras têm se dirigido.
Viva a todos os ativistas do planeta que não desistiram de acreditar que o mundo pode ser melhor. Viva nossa esperança. Viva a humanidade das ruas que finalmente manifesta para os velhos dirigentes seu desejo de conviver em paz com as diferenças.
Viva os eleitores americanos que passaram por cima da cor da pele do Obama e o elegeram o chefe daquela nação.
É isso o que está mais me comovendo hoje. Não foram os doze por cento de negros da população que elegeram Obama. Foi o povo americano como um todo, depois de um curto processo que levou quarenta e quatro anos entre a conquista dos direitos civis por parte dos negros e a implantação de ações afirmativas. Isso é o que faz um país ser uma Nação.
Nada acontece por acaso. Um dos motivos que me levou a achar que o Obama era o cara foi a quantidade de filmes americanos que nos últimos anos têm sido protagonizados por atores negros no papel de presidente. O ambiente veio sendo criado aos poucos, porque os USA apostaram antes na potencialidade dos seus minoritários cidadãos negros. Antes do Presidente já foram eleitos senadores, governadores. Formaram-se médicos, executivos, classe média negra alta, artista e atletas aos montões, apresentadores de TV, generais, seriados baseados nas famílias negras, enfim, a minoria negra americana existe de verdade e faz parte da fotografia dos Estados Unidos.
Enquanto isso o Brasil, o país com a maior população negra e mestiça do mundo...

