08/04/2013

Daniela Mercury tocou o tambor. Simbora gente!


Sempre achei a cantora Daniela Mercury uma artista excelente. Boa cantora, dançarina graciosa, baiana comprometida com a cultura de seu estado, mas nada além disso.
Até aqui, ela pra mim era só uma artista como tantos outras ocupadas com o seu mundo de divulgações, capas de revista, shows, discos, viagens, venda de disco, o universo da música e outra coisitas mais.
Aí a Daniela resolve contar pra todo mundo que se casou com uma mulher e então, para o meu prazer, ela muda de status social. Passa a ser uma cidadā que ao assumir publicamente sua homossexualidade, entra em um outro mundo. Um mundo onde o glamour nāo mais irá determinar a maneira como ela vai ser vista  pelo todo da populaçāo. Um todo, que de uma maneira geral, vai até recriminá-la e onde homens e mulheres heteros, nas mesas dos mais fedorentos botequins, irão dizer que “ Nāo pegaram ela direito”,  "Ninguém vira sapatão da noite pro dia" e outras barbaridades que nāo precisam ser aqui declinadas.
Meus parabéns a Daniela Mercury pelo orgulho e certeza que ela tem sobre os destinos da sua vida, que só a ela pertencem, mas que nāo teme quando seu ato é submetido a lente de aumento da hipócrita sociedade brasileira que ainda se choca, mais de cem anos passados da aboliçāo da escravatura, com as regras da nova lei sobre contrataçāo de empregadas domésticas.

A atitude de Daniela Mercury vai além do amor que sente pela nova parceira, vai além das novas relações familiares que serão geradas, vai além de muitas outras coisas, mesmo que ela nāo tenha tido essa intençāo.
Essa decisão acontece num momento em que estamos sendo agredidos diariamente com os pensamentos mais racistas, nazistas e sectaristas de cunho religioso, como há muito nāo se via.
A democracia brasileira está em crise, está doente, quando ela nāo possui elementos que promovam  a harmonia entre as religiões, (onde o poder econômico determina a quantidade de fiés),  quando ela nāo promove o respeito as opções sexuais individuais e o pior, quando os meios de comunicação tratam tudo isso como curiosidade de artista, nāo promovendo programas que levem ao debate e a informação da populaçāo. Nāo dando voz e imagem a homossexuais e praticantes de religiões de origem negra, o mundo midiático está contribuindo para a perpetuação das discriminações e incentivando a violência.
As infelizes afirmações do pastor Marcos Feliciano revelam o seu desprazer com a  palavra democracia, talvez  porque ela tenha o vocábulo “ demo” no início. Tudo bem, ele nāo é obrigado a ser democrata, mas a democracia combalida de nossos dias lhe permite ser mal educado. A nossa democracia nāo está me protegendo das ofensas diárias que eu sou obrigado a receber por parte deste parlamentar  da fé, ou melhor, pra lamentar da fé.
As religiões e partidos políticos alinhados a este Pastor estāo criando no Brasil um caminho para chegarmos a uma guerra santa, que nāo terá nada de santa, porque, como no passado, se formos encurralados, impedidos de vivermos nossa liberdade, iremos reagir. “Folga negro de Angola que ele nāo vem cá. Se ele vier quilombola, pau a de levar”, já dizia o refrão.
Quando o Pastor Feliciano diz que a liberdade de um termina quando começa a liberdade do outro, está repetindo o texto que foi usado por muito tempo pelos simpatizantes do golpe de 64. Isso é caô. A minha liberdade começa e acaba aonde eu quiser, nāo existe liberdade controlada. Se o outro quer que eu viva as minhas preferências as escondidas, ele está me impondo uma prisão, partindo do pressuposto que o mundo dele é que é o bom, o digno, o melhor, o santo, o mundo da “moral e dos bons costumes”.

Daniela Mercury fez o que muitos de nós, principalmente os artistas, precisamos fazer: esquecer um pouco o lance da imagem e os prováveis convites da TV e do segundo caderno  para aparecer aqui e ali, e colocarmos nossas preferências existenciais, políticas e religiosas ao alcance do grande público. É urgente.
Vários setores estão reagindo a onda de progresso no Brasil tentando levá-lo de volta aos tempos da inquisição. Alô! entidades judaicas, coloquem-se, por favor.  Nāo deixem essa briga só para nós das religiões de origem africana ou para os gays da passeata. Isso um dia pode sobrar pra vocês também aqui no Brasil. O Pastor Feliciano está fazendo a parte dele, a Daniela também. Eu faço a minha escrevendo aqui nessa modesta trincheira digital. E você?

Assinado: Cláudio Jorge. Negro, músico, botafoguense, Vila Isabel, morador da zona oeste, Ogan do Oxalá de Māe Antonieta Babamim, heterossexual, boêmio, simpatizante de qualquer movimento cultural ou político que tenha como meta a liberdade de existência. Como diria mestre Wilson das Neves: trata de ti.

2 comentários:

Anônimo disse...

Engraçado prezado Cláudio Jorge, como vc e outros estabelecem uma guerra de pontos de vista onde o oposto a libertinagem que estamos vendo seria um movimento religioso ortodoxo quando muitos que sequer são religiosos são também contrários a esta imposição homosexual que estamos vendo. Você diz que a democracia permite que você seja sujeito a comentários infelizes proferidos por um Marcos Feliciano incomodando a sua pessoa mas por outro não considera que outras pessoas também se sintam incomodadas com pessoas que fazem questão de exporem suas preferências sexuais como um acontecimento midiático. Ora bolas, se a Daniela Mercury quer ser homossexual, que viva a vida dela e não venha a público expor isso pois isso não me interessa e também não interesssa aos que estão preocupados em como comprar tomate para o jantar. Você fala que estas pessoas sofrem até profissionalmente ao expor suas preferências mas o que eu vejo hoje é a Joelma, que não foi ignorante nem nada, sofrer perdas profissionais por simplesmente expor uma opinião diferente do que é pregado atualmente. Os meios de comunicação, maiores formadores de opinião e doutrinadores da sociedade atual, estabeleceram que assumir ser gay hoje em dia é legal e muito positivo enquanto aqueles que não querem que seus filhos viram gays ou que se propague essa quase ditadura gay que vemos hoje é tratado como um ignorante. Essas pessoas também devem ter suas opiniões aceitas sim. Agora, quanto a Daniela Mercury, esquecida outrora e agora figura carimbada em capas de revista e programas de tv, nos mostra que era apaixonada por sua companheira há muito tempo e agora assume sua paixão. Agora eu te pergunto: como uma mulher que tinha outra preferência sexual formada há tempos se casa com um homem e tem filhos com ele? Esses filhos são o q? Resultado do amor do casal ou um mero projeto pessoal desta pessoa? É por isso que nossa sociedade está falida: tratamos filhos como meros projetos pessoais e não como resultado de um relacionamento e por causa disso vivemos um casamento de farsa. Essas coisas não são consideradas pois na sociedade de hoje vale que você viva todas as experiências que a liberdade lhe permite, você não precisa decidir hoje se vai ser engenheiro ou advogado assim como não precisa decidir se vai ser homem ou mulher. Experimente tudo, seja homens ou mulheres, drogas ou outra coisa que exista. Experimente tudo, até pq assim quanto mais aberto a novas experiências mais sucetível ao consumo você será. Você mulher, case com uma mulher, e se quiser ter filhos nós lhe oferecemos inseminação artificial com um esperma qualquer guardado no nosso banco. Você homem: aguarde pq quem sabe no futuro não consigamos que você engravide e mostre uma bela barriga para a sociedade com uma criança em formação lá dentro. Só assim mesmo, pq se não for assim a raça humana estará extinta. Mas vamos simbora, formando essa nova sociedade que pode tudo e quer tudo e que caminha para o anarquismoe para essa falsa sociedade esclarecida que age com hipocrisia chamando seus opositores de hipócrita.

Cláudio Jorge disse...

Anônimo , podemos entrar num debate, mas preciso saber quem é você. Como este espaço é meu e não concordo com teu ponto de vista, vou lhe dar um prazo de uma semana para você se identificar , caso contrário, retirarei seu comentário deste post. Obrigado e um abraço.