19/07/2011

Évora. Uma crônica à parte em Portugal


Há quatorze anos que neste período viajo a Portugal para atuar em shows. Dessa vez, muito por conta das dificuldades financeiras daquele país, este ano não fui.
É engraçado como o corpo da gente, acostumado a algumas rotinas, estranha quando alguma coisa muda. A primeira mudança que senti é a vontade desesperada de comer aquelas comidas portuguesas. A outra é a falta de intimidade que eu fiquei com o inverno carioca, já que passei estes últimos anos vivendo só verão. O daqui e o de Portugal que acontece em junho, julho e agosto com temperaturas que chegam a quarenta graus.
Além disso, o inverno carioca dessa vez foi inverno mesmo e as minhas roupas não estavam preparadas para isso.
Por conta disso tudo me vieram à cabeça vários momentos dessas viagens que fiz, e encontrei nos meus guardados uma de muitas crônicas que escrevi sobre o assunto. Vamos lá.
Costumo dizer para aqueles que detestam Brasília e São Paulo que qualquer cidade do mundo pode ser muito legal, o que faz a diferença é a porta por onde você entra nela.
Na cidade de Évora em Portugal, acho que me deve ter acontecido isso. Na realidade a sensação que tenho é que em Évora eu entrei por um portal, daqueles dos filmes do Herry Porter. O lugar é mágico e lá me senti muito bem.
A cidade tem o grande charme de ter conservado algumas relíquias do passado como o muro que a cerca, construído para proteger a cidade na época medieval, assim como algumas ruínas do tempo em que os romanos ocuparam Portugal.
Em Évora no verão faz um calor de quarenta e dois graus e uma boa porta de entrada poder ser a pessoa que te serve o primeiro chope. Um frango assado no restaurante A Gruta, pode ser outra. No meu caso devo ter entrado por um portal que estava em algum daqueles becos que saí investigando sem sentir, quanto já tinha andado subindo e descendo algumas ladeiras.

Só na quarta vinda à cidade decidi visitar a famosa Igreja dos Ossos. Antes achava uma coisa mórbida por conta das paredes serem revestidas de ossos humanos, mas agora eu pensei: Pô! Cláudio Jorge. Todo mundo vem a essa cidade para ver  o Templo de Diana e a Igreja dos Ossos. Você vem aqui pela quarta vez e não vai poder contar como é isso para os seus três leitores?
Resolvi visitar, paguei um ingresso mais caro para poder tirar fotos, saquei da máquina e a bateria estava descarregada. Acho que não era pra eu fotografar mesmo e não é a primeira nem última vez que isso acontece nessa minha careira de fotógrafo amador.
Ficaram as imagens na lembrança, nada atemorizantes, porque antes de encarar as tíbias e crânios lemos o texto escrito pelos franciscanos que a criaram. Alguma coisa tipo “aqui nossos ossos esperam pelos vossos”.
Tem um clima meio terror, mas na realidade é humor e vejo como aquele papo: tu vai morrer mesmo mermão, não adianta, vai te acostumando com essa Idéia. Não deixa de ser uma forma de já ir preparando as pessoas para o inexorável, né?
Évora é mágica, misteriosa, linda, medieval nas suas ladeiras, becos e igrejas. Provoca a imaginação e às vezes rola aquele papo, como aconteceu com o nosso técnico de som o T. Reis: "Estou todo arrepiado, acho que já vivi aqui em outra encarnação". É possível.
Existem vários símbolos misteriosos espalhados pela cidade e até uma loja de produtos esotéricos chamada "Casa de Iemanjá" encontrei por lá. 
A oportunidade de se observar numa mesma cena as ruínas romanas do Templo de Diana, uma igreja do ano de mil trezentos e poucos,  a alguns metros de um cybercafé, com uma ferrari esport do ano passando na hora, é muito louco.
Estava uma vez bisbilhotando uma livraria no Shopping Rio Sul no Rio de Janeiro e dei de cara com o livro “A bruxa de Évora”. Comprei, li e me surpreendi com a associação da bruxa de Évora a algumas figuras da Umbanda. Diz o livro que na época da inquisição em Portugal, muitas mulheres consideradas bruxas foram queimadas nas fogueiras e as que conseguiram escapar fugiram em navios que vinham para o Brasil. A essas mulheres, no imaginário religioso brasileiro, ficaram associadas figuras como Maria Molambo e Maria Farrapo. Laroê.




Um comentário:

andrea dutra disse...

estive na capela dos ossos e juro que nunca me ocorreu o medo, pq aquilo lá chega a ser poético. O templo, aquelas sardinhas na brasa e as batatas ao murro, tb.