12/01/2018

Casa do Jongo




Eu tive o prazer de conhecer Darcy do Jongo. Eu tive a honra de atuar com ele em um show no CCBB. Me lembro de outro momento em que batemos um papo rápido lá na Praça Tiradentes, na época do lançamento do grupo Batacotô. Um papo sobre tambores, Jongo, aquelas coisas que ele conhecia como ninguém.
Acompanhei a consolidação do Jongo da Serrinha como grupo de shows. Tia Maria, Lazyr e todos os outros queridos. Shows, DVDs, uma carreira linda e a inclusão no mercado de músicos profissionais de meninos saídos de lá. Pretinho da Serrinha, Jorge Quininho e Thiaguinho da Serrinha, são exemplos.
Estive presente na inauguração da Casa do Jongo lá em cima na Serrinha, espaço da Prefeitura que não deu muito certo por problemas óbvios.
Estou relatando tudo isso para fazer uma pergunta: a Prefeitura do Rio sabe com quem está falando? Infelizmente acho que sim. A prefeitura do Rio de Janeiro sabe muito bem quem é, quem somos, o Jongo da Serrinha.
É impressionante como essa prefeitura tem marcado sua gestão pela prática de mexer em vespeiros culturais. Estão sempre cutucando entidades como a “roda de samba”, o carnaval, reuniões populares e agora o Jongo, com uma vara muito curta. Talvez essa prefeitura não tenha noção do abismo que está cavando com seus pés. Caso não tenha noção, é por isso que muita gente está reclamando, pra lhe esclarecer, se for o caso.
Sou um opositor dessa Prefeitura no que concerne a uma visível intenção de mudar a fórceps a vocação cultural da nossa cidade, nossa herança cultural fruto de tanta água que rolou por baixo da ponte, baseada na cultura afrodescendente.
Ninguém muda a cultura de um povo por decretos, Prefeito. A cultura se transforma por si só. Se a Casa do Jongo conquistou pra si a estrutura que agora se desfaz, foi por que o trabalho veio de longe, desde a escravidão, desde a abolição.
Está cada vez mais nítido o abismo criado entre a política cultural da prefeitura e os artistas e produtores do Rio. Vários elementos contribuem pra isso. O  fato de termos uma profissional negra, neta de sambista consagrado e respeitadíssimo,  comandando a Secretaria de Cultura é fato que não pode ser menosprezado. Muita gente não gostou.
O fato dessa prefeitura ser comandada  por um líder de seguimento religioso que ideologicamente  atua contra a cultura negra e religiões de matrizes africanas, é outro fator que não pode ser minimizado. Assim como sabemos que há distorções que permitiram a algumas produções ao longo dos anos serem mais beneficiadas do que outras, por vários motivos, na hora da distribuição de verbas.
Não vou engrossar o coro dos que atacam a Secretária. Ter uma negra carioca nessa função é motivo de comemoração, mas também não posso me omitir a crítica ao grande equívoco cultural que se comete quando, mesmo em tempos de crise, não se prioriza a manutenção e o apoio irrestrito a um símbolo tão forte como é o Jongo da Serrinha. Não posso concordar com essa negativa da Prefeitura.  A argumentação oficial de que haveria verbas para 2018 não resolve a questão que levou ao fechamento da Casa do Jongo. Isso não poderia ter acontecido, tinha que ser evitado, tinha-se que se manter isso, a qualquer custo. É muita história do povo da Serrinha envolvida, são muitos profissionais envolvidos, são muitas crianças envolvidas. O prejuízo é enorme.
Penso também não ser prudente e produtivo “racializar” ou “personalizar” o debate. Acho que a questão deve ser colocada no estrito âmbito da classe artística (artistas e produtores) e da Prefeitura.
Essa política nacional  antiga de nas crises  a cultura ser a primeira a dançar  precisa ser interrompida. A Prefeitura tem condições de equacionar isso tudo e fazer o aporte direto de verbas para a Casa do Jongo e qualquer outra entidade que faça parte da consolidada história de nossa cidade. Está aí o rio de dinheiro que correu para as festas de fim de ano, nada contra, mas uma pequena parte deste dinheiro poderia ter salvo a Casa do Jongo, independente dos entraves burocráticos, sempre há uma saída, sempre pode haver alguma parceria ou composição. Acho que faltou vontade política.
Com essa negativa de “salvar” a Casa do Jongo, a Prefeitura só está amealhando mais e mais opositores e descontes, além de criar uma energia muito ruim em torno de si.
O lado bom da história é que a cada negativa, a cada porta fechada, a cada projeto cancelado, nossos  artistas e agentes culturais ficam mais  unidos, organizados e conscientes.
Muitas forças comemoram o fechamento da Casa do Jongo, seria bom se pudéssemos apontá-las todas, mas é melhor abafar o caso.

As velas de sete dias estarão acesas semanalmente e os tambores não cansarão de tocar, até que se reabra a Casa do Jongo quando para sempre iremos ver Tia Eulália dançar. Machado.

http://jongodaserrinha.org/a-casa-do-jongo/

Um comentário:

Luiz Ramos disse...

É isso Mestre. Precisamos nos unir e na adversidade construirmos um caminho ainda mais sólido. O Instituto dos Pretos Novos também vem passando por dificuldade semelhante. Mas... prefeitos passarão. A cultura jamais. Sigamos na luta!!!