06/12/2012

Oscar Niemeyer





Igual ao meu Botafogo, Oscar Niemeyer foi um campeão desde 1907,  ano em que nasceu. Nasceu aqui nas Laranjeiras, em boa família. Jogou no juvenil Fluminense, foi boêmio, tocava cavaquinho, não acreditava em Deus, tornou-se comunista e um dos maiores arquitetos de todos os tempos.
Os jornais e televisões estão ressaltando as obras que projetou para vários lugares do planeta. Falam de projetos que não conseguiu ver em pé, como o Museu Pelé, e chamam a atenção pela sua preferência pelas curvas, em detrimento dos ângulos retos, muito por conta de sua inspiração nas curvas femininas.
Em uma das muitas chamadas na televisão ouvi ele sintetizar a vida numa única palavra: solidariedade.
Quando o Oscar (como o Chico Buarque se referiu a ele, anunciando sua presença na plateia no mais recente show do cantor no Vivo Rio) nasceu, a abolição da escravatura no Brasil havia sido assinada há apenas 19 anos. A sensação deve ser parecida como alguém que  nasceu no ano em que foi eleito o primeiro presidente negro americano e essa pessoa vá viver os mesmos 104 do Niemeyer até 2112.
Solidariedade é palavra meio fora de moda nestes tempos de juros altos, mendigos agredidos nas ruas, tráfico de mulheres, de drogas, de armas. Tempos de poluição, desmatamentos, corrupção em níveis inacreditáveis e a rapidez das mudanças tecnológicas que acontecem  em gigabits de velocidade.
São tempos bem diferentes daqueles em que nasceu o nosso querido arquiteto e que, na minha modéstia opinião,  começaram a se deteriorar com o golpe militar de 1964.
Golpe que atingiu vários amigos de Oscar, mas que ele, muito por conta de sua notoriedade mundial, conseguiu se proteger.
Hoje pela manhã me emocionei com a cena da entrada do caixão no avião da FAB.
Mais um brasileiro apaixonado pelo Brasil brasileiro tira o time. Mais um brasileiro apaixonado pelo novo, pelo diferente, pelo ousado nas artes, se manda.
Oscar Niemeyer viveu inacreditáveis 104 anos, tempo que ele precisou para consolidar no mundo sua preferência pelas curvas e exercer em várias situações a solidariedade humana.
Minha jovem patota boêmia, hoje na casa  dos sessenta,  perde um de seus ídolos, um cara que até bem poucos anos atrás tomava seu vinho e fumava uns  charutos no papo com os amigos. Em 104 anos, poucos anos são como poucos  dias, né?
Uma coisa no noticiário da Globo me chamou a atenção: eles disseram que Niemeyer era comunista e amigo pessoal do Fidel Castro. Não chamaram o Fidel de ditador, nem o "comunista amigo pessoal do Fidel Castro", soou como crítica, mas sim como uma condição humana normal, sem nenhum problema. O Brasil seria bem melhor se a Globo se comportasse desse jeito em relação a qualquer brasileiro. Tá bom. Niemeyer não era um brasileiro qualquer, apesar de sua imensa simplicidade.
Então, no embalo da TV Globo eu  digo: Viva Oscar Niemeyer! Um brasileiro comunista, que não acreditava em Deus, amigo do Fidel Castro, do Juscelino, do Brizola e do Darcy Ribeiro.

PS: Eu acredito em Deus e nāo sou comunista, mas respeito profundamente o direito que as pessoas têm de serem o que quiserem em suas vidas, principalmente quando elas o fazem com a grandeza que fez o Oscar Niemeyer.

4 comentários:

Andre Tandeta disse...

Só posso dizer uma coisa sobre esse lindo texto : O Sorte !
Beijo, Irmão.

Xico Flavio disse...

Claudio,
Neste texto ao grande ícone, você construiu uma das mais simples e comovente despedida ao eterno BRASILEIRO (com letras maiusculas. Seguramente um de seus mais belos sambas de todos os tempos.
Não a toa somos irmãos, em Fé, Esperança e Solidariedade.
Você sempre me deixa orgulhoso da amizade.
xF

Dirceu Leite disse...

Claudio , voce é um "gentleman" literário ! Beijos

Leila disse...

Como é bom ler seus textos Cláudio... Sempre muito elegantes, inteligentes e leves. Admirava muito esse gênio da arquitetura e extraordinário ser humano. Parabéns por sua sensibilidade. Bjs,