01/04/2011

De Dolores a Bolsonaro




Crônica do Programa Garimpo do próximo dia 5 de abril de 2011
Rádio Nacional 1130 KHZ – 21 horas. Reprise na sexta no mesmo horário


Estes últimos dias meu espírito tem sido ocupado por uma artista brasileira da maior importância e que muitos talvez desconheçam. Os da antiga, os do tempo do mundo real, em que havia dor de cotovelo, que se cantavam dores e sofrimentos, devem se lembrar.  Os de hoje, os que não pesquisam sobre música popular, provavelmente não se lembram pois vivemos o tempo da alegria a fórceps, e ninguém quer mais ficar cantando em alto e bom som que perdeu um grande amor. Ultimamente as pessoas estão preferindo cantar alto e em som duvidoso apenas as alegrias da vida, como se fossemos seres feitos só da parte alegre do viver.
Mas tudo bem, cada um sabe de si, e como diz Wilson da s Neves, “trata de ti”.
Mas Dolores Duran, a quem eu ouvi muito em fita cassete na minha juventude, volta agora aos meus hábitos de ouvinte de música, e volta com tudo.
Volta com as músicas geniais que compôs, volta com projetos dedicados a sua obra lançados recentemente, volta toda hora coincidentemente, numa citação aqui e ali.

Dando uma geral por aí fiquei sabendo de duas histórias que me chamaram atenção em relação a Dolores Duran e que eu gostaria de contar para os que não sabem, aproveitando as mais uma vez infelizes declarações públicas do Deputado Jair Bolsonaro.
Dolores Duran era não branca. Digo não branca, porque se eu disser que ela era negra tem gente que vai dizer que era mulata e outros vão dizer que era morena, ou mestiça e por vai. Então pra facilitar, a não branca Dolores Duran teve um romance com o não menos genial João Donato que teve que sair do Brasil por conta das proibições da família ao seu namoro com a não branca Dolores Duran. O argumento é que ela era mais velha do que ele. (!)
Dolores Duran teve outro amor e  se casou, mas sua mãe foi proibida pelo noivo de comparecer a cerimônia porque ela era negra. Mais uma das dores de Dolores.
Dolores Duran era cantora de boites, trabalhava à noite, dormia de dia. A saúde que já era fragilizada não agüentou e ela faleceu aos vinte e nove anos deixando obras maravilhosas como as que você está ouvindo nas entrelinhas dessa crônica.

Havia um freqüentador na boite onde ela cantava que ia quase todo dia assistir Dolores, mas não falava com ela por ser não branca. Ele chamava o garçom e dizia: “Manda aquela  negrinha cantar tal música”.
Neste mesmo momento em que me envolvo com a história de Dolores Duran, fiquei extremamente ofendido e triste, enquanto ser humano, enquanto cidadão que paga imposto, com as declarações racistas do deputado Bolsonaro, recentemente num programa de televisão. Falo da minha tristeza com medo, porque a violência da declaração assusta. Estamos em 2011, ano que temos uma mulher na Presidência do Brasil, um negro na Presidência dos USA e o casamento entre homossexuais é legalizado na Argentina.
As declarações do Deputado  e o apoio de seus adeptos estão na contramão do tempo, ou seja, são do ano de 1102.
O compositor Billy Blanco compôs um samba chamado  “A Banca do Distinto”, por conta daquela história da boite com a negrinha Dolores Duran.
Encerro então essa crônica dedicando este samba do Billy ao Deputado Bolsonaro, na voz da negríssima Elza Soares..

Até a próxima semana e muita paz a todos os ouvintes da Rádio Nacional, com solidariedade, amor e respeito as diferenças.

A BANCA DO DISTINTO (Billy Blanco) - Com Elza Soares

Não fala com pobre, não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Pra que tanta pose, doutor
Pra que esse orgulho
A bruxa que é cega esbarra na gente
E a vida estanca
O enfarte lhe pega, doutor
E acaba essa banca
A vaidade é assim, põe o bobo no alto
E retira a escada
Mas fica por perto esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão
Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal
Todo mundo é igual quando tombo termina
Com terra em cima e na horizontal

4 comentários:

Aguiarsan disse...

Os asiáticos tem uma máxima que fala que o homem nasceu com dois ouvidos, dois olhos e uma boca. Por isso devemos ouvir e ver duplamente e falar o menos possível. Quando penso na "liberdade de expressão" acho válida em um país democrático e de direito, mas a liberdade é um valor que deve ter responsabilidade e respeito. Ainda sobre máximas, uma bem brasileira diz que "quem diz o quer ouve o que não quer" e é conseqüência da falta de respeito para com as pessoas. Se uma pessoa quando entrevistada não entendeu a pergunta não deveria responder sem saber. Hoje é dia 1º de abril, quando se fez um golpe que prejudicou o Brasil e gerou o bolsonariato que herdamos. Alea jacta est!

nivaldo duarte disse...

"A minha primeira fase de encantamento com a música começou, em sombras de dúvidas com o velho”rabo quente”. A segunda fase aconteceu quando decobri que estava apaixonado por aquele ambiente que rolava no estúdio. Eu convivia com a música, assistia ao seu nascimento, ajudava no parto, e às vezes até na fecundação, como no dia em que vi e ouvi uma moça baixinha dedilhando um violão, pedir a nossa opinião sobre uma musiquinha (musiquinha ?????), que estava terminando. As primeiras frases nunca mais saíram da minha cabeça:
A gente briga
Diz tanta coisa que não quer dizer
Fica pensando que não vai sofrer..."
Pois é. Dolores Duran, também vez por outra aparecia lá no estúdio, para contar e saber da últimas novidades; era contratada da rádio Nacional como cantora e curiosamente para cantar repertório internacional. E o fazia muito bem no inglês, francês, italiano, etc.
Eu tenho a impressão que a compositora escondida dentro dela, resolveu botar a cabeça pra fora do esconderijo, naquele dia. E eu vi isso.

Chico Alves disse...

Claudio, olha só o que o idiota do Cláudio Rosário escreveu depois de ser afastado do elenco do Botafogo.

- Bom fui afastado do elenco!! Tudo bem!!! Agradeço o clube por tudo!! E respeito todos!! Deus abençoe vocês!! Vou morrer preto mas sou homem !! Tenho caráter, tirei um peso da minha cabeça!!

é brincadeira né?

Irinéa MRibeiro disse...

Essa história que o Billy conta,vai mais longe!
O tal cara pedia ao garçom pra fazer um sanduiche embrulha-lo e somente entregar a ele quando saísse.
("Nào carrega embrulho")
e, segundo papo com o Billy, quando a Dolores cantou esse samba, ele ficou olhando...olhando...e depois levantou e foi embora.
Carapuçou! eheheh
Billy namorava a Dolores e estava sempre na boite, observando o cara, ele pode criar mais fácil o samba!
Bom estar com vc! bj