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Dia internacional da mulher

Eu não ia mais escrever sobre o Dia internacional da mulher, mas aí eu fui na feira, comprei umas flores pra comadre, vi um monte de homem fazendo a mesma coisa, vi mulheres atacando nas barracas de frutas, frango e legumes e aí uma série de reflexões ocuparam a minha cabeça aquecida pelo sol de meio dia, aquele horário bom de fazer uma xepa de classe. Vamos lá.

Mulher é tudo igual, afirma o pensamento masculino preconceituoso. Se mulher é tudo igual, como é que alguém pode sacanear uma pessoa que é igual a sua mãe, sua irmã ou sua filha? Quando eu vejo a rapaziada falando mal de mulher, do jeito que alguns falam, sempre penso: esse cara não gosta muito de mulher.
Eu sempre achei que a mulher era a dona do mundo porque por trás de qualquer Bush tem uma mãe que criou aquele cara desde pequeno. “Olha que gracinha o Bushinho brincando de mocinho matando todos os índios amiguinhos”. Deve ter dito a mãezinha do Presidente americano.
Imagino ele de aventalzinho, sapatinho de crochê, a alegria da vovó e do vovô, a primeira ida a escola, o primeiro automóvel, a primeira dose de whisky e a partir daí vocês já sabem a merda que deu, né?
Fico com pena dessa mulher. “Aonde eu errei?", ela deve pensar, ou não. Ela pode não valer nada também e o Bush pai pode ter sido um mané vivendo sobre o autoritarismo sufocante de sua esposa.
São coisas que a gente não tem como ter certeza do quem é quem na criação dos filhos.
Eu prefiro ficar com a hipótese de que os homens são a barra pesada mesmo. Embora as mães tentem alguma coisa, o cara é que dá a última palavra no que se refere ao contato dos filhos com o mundo externo e aí todo homem tem que ser forte, bonito, espada, rico e ter um monte de mulher, o que é prova de virilidade no pensamento dos homens fortes, bonitos, espadas e etc.
Às mães é destinado educar suas filhas a se encaixarem nesse modo de pensar masculino para que elas possam casar bem, procriar e obedecer ao marido. Fora isso é tudo piranha, no modo preconceituoso de pensar se a mulher for viver sua sexualidade com quem e com quantos ela quiser.
Hoje, nos anos 2000, muita coisa mudou para poucas mulheres e para muitas, a situação continua a mesma.
Mesmo no Rio de janeiro, uma cidade importante do mundo moderno, mulheres ainda são espancadas nos pontos de ônibus, continuam ganhando menos que os homens e se forem negras então piora tudo, porque aí ela pertence a dois grupos discriminados. Se for gay, serão três grupos.
O feminismo é um assunto que sumiu dos bares, pelo menos das mulheres que hoje fazem parte do meu universo. Elas continuam dizendo que homem não vale nada, que é tudo igual, só muda o endereço. Outro dia na academia teve uma hora que eu era o único varão e haviam mais três minas. Uma de seus quarenta, outra de vinte e poucos e a terceira com cara de quem já tinha passado dos cinqüenta .
Foi uma sessão de paulada em cima dos mancebos, e eu ali, escondido atrás da máquina dando uma pressão na panturrilha, quando a mais velha mandou: “Homem pra mim é objeto de consumo, eu uso e jogo fora”. Me levantei, passei por elas e disse baixinho: “Deixa eu ir embora porque estou em minoria e essa prosa pode sobrar pra mim”. Todo mundo riu e eu saí dali pensando sobre isso. Acho que a idéia do feminismo não era chegar a esse ponto, por que não imagino que este seja o melhor relacionamento que se espera entre homens e mulheres.
Concordo que todo movimento leva a alguma transformação, de um lado e de outro. A mulher mudou, mas sua mudança fez o homem mudar também.
Penso que alguns homens entraram numa e perceberam a diferença da qualidade de vida de quem caminha ao lado da mulher, nem acima nem abaixo, mas outros se armaram numa defensiva/ofensiva que transformou as do sexo oposto em cachorras, frutas e popozudas do funk nosso de cada dia expostas nas páginas de revistas masculinas. Aliás, isso é uma loucura. Mulher não pode se destacar por algum motivo que pensam logo em colocá-las peladas na revista, e o que é pior, muitas estão topando e investindo nisso porque é um “nú artístico onde o fotógrafo me deixou bem à vontade e eu pude mostrar o meu trabalho. Foi tudo muito profissional e com muito respeito". Muita grana no banco, acho que é o que é mais importante nisso tudo.
A grana, o tráfico, a polícia e a necessidade que faz o sapo pular, fizeram aumentar em muito o número de profissionais do sexo. São tantas que estamos até exportando para Portugal, Espanha e muito por conta disso nosso passaporte no exterior é a maior sujeira.
O lado bom é que tem muita mulher valorizando a condição feminina e correndo atrás da melhoria deste planeta, conheço muitas.

Comemoro então esse dia Internacional da Mulher com todas essas reflexões desejando um mundo mais fraterno e igualitário entre homens e mulheres. Estamos longe disso, mas estamos caminhando. Mando beijos e flores pra minha mãe, em memória. Flores pro meu filho que nasceu maravilhosamente nesta data tão importante. Flores pra minha tia e primas. Flores para as mulheres que tive e para as que um dia quis ter e não consegui. Flores para minhas amigas de perto e de longe, enfim, felicidades pra todas neste dia e, principalmente, muitas flores e beijos para minha mulher, presente dos Deuses, à quem amo e quero muito.

O samba a seguir compus na década de oitenta e recebeu gravações de Mart’nália e Jorge Aragão.

Fogo e mágoa
(Cláudio Jorge)

Quando uma mulher / Deseja um homem mas não quer /Que esse homem /Seja como ele é
É um sinal, é fatal / Que a paixão seja um veneno /Que não satisfaça o coração
E a ambição de ser feliz / Fica impossível de se ver realizada
Como é doloroso se viver / Entre o fogo e a mágoa

E quando esse homem / Também deseja essa mulher / Querendo que ela
Seja mais do que ela é / É um sinal, é fatal
Que a paixão seja um veneno / Que não satisfaça o coração
E a ambição de ser feliz / Fica impossível de se ver realizada
Como é doloroso se viver / Entre o fogo e a mágoa

Homem e mulher / Que se dedicam ao prazer / De receber e oferecer o que se é
É um sinal, é fatal / Que o amor / Chegue e se instale / Como um cobertor a proteger
E é possível se querer / E a ambição de ser feliz é alcançada
Toda paixão sem amor / Pode estar certo, é quase nada.



Comentários

Unknown disse…
Obrigada pelo texto, Cláudio Jorge. E nós mulheres ainda temos tanto que caminhar, lutar, exigir. Às vezes cansa mas a gente respira fundo e vai em frente. Pelo menos nos dias de hoje não somos queimadas vivas qdo reclamamos do chefe. Salve o dia 8 de março!
bonito, claudio jorge.
Unknown disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulinha @};- disse…
Liiindo! Cajó! Este foi o maior presente que eu recebi neste dia... Super Beijo Paulinha @};-

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