09/08/2016

Plataformas digitais: Meu bem? Meu zen? Meu mal?



Meu bem

Caríssimo leitor, quero aproveitar este momento olímpico carioca onde nós músicos, cantores, compositores e arranjadores estamos tendo que dar cambalhotas para sobreviver, para dividir com você uma reflexão inspirada na lição de superação de limites que têm acontecido bem aqui ao lado da minha casa, particularmente vindas de Rafaela da Cidade de Deus.

Nas últimas semanas  decididamente, e finalmente, aderi as chamadas “plataformas digitais” para audição e compra de música. Nessa pegada estou promovendo um natal antecipado presenteando minha coleçāo de  CDs para os amigos mais chegados e ainda apegados a essa mídia.
Não sou saudosista, embora seja um cultuador das tradições, muito pelo contrário, meu precoce envolvimento com a informática por volta dos quinze anos (aprendi a usar a máquina de perfurar cartões IBM 029, a  programar na linguagem  em Assembler, alguma coisa do COBOL e operar computadores Burroughs – tudo peça de museu hoje em dia) me leva até hoje a sempre procurar acompanhar as novidades, o que está cada vez mais difícil, é uma atrás da outra sem que eu tenha entendido direito as anteriores.

Esse meu processo de desapego das mídias tradicionais começou quando me desfiz do acervo de cerca de seiscentos discos 78 rpm que herdei de meu pai. Foi a discoteca básica que formou meu gosto musical e ia do samba ao jazz, passando por boleros, música sertaneja, cubana e ritualística.
Acabavam meus casamentos mas lá ia eu com aquelas caixas todas, tomando o maior cuidado para nāo quebrar, acomodando tudo em novos armários.
Até que uuma parceria com o Instituto Moreira Sales fiz uma doação e eles me deram todo o material digitalizado. No embalo vendi um monte de LPs e doei outros tantos, mas ainda guardei alguns mais queridos junto com o pick-up moderno que digitaliza os LPs. Até quando?
O processo foi seguindo até que eu e a patroa descobrimos um negócio chamado “Smart TV”. Experimentamos então a experiência do “Bluetooth” para ligarmos nossos “Smartphones”, (calma leitor, ainda estou escrevendo em português) e o espetáculo do Youtube na TV, o que nos deu aquela sensação de liberdade da programação dos canais de  TV.

Daí pra chegar nas plataformas digitais foi rápido e o primeiro toque, tardio,  foi quando eu e meu parceiro Augusto Martins fomos a um programa de rádio divulgar nosso trabalho sobre Ismael Silva. Durante o papo o apresentador nos falava fascinado sobre a sua experiência com as plataformas.
Eu nāo entendia direito do que ele estava falando, fiquei com uma certa má vontade, mas sentia que aquele CD que a gente tinha dado pra ele nāo seria ouvido no carro, muito menos em casa. A coisa se confirmou quando ele perguntou se o trabalho estava nas plataformas digitais.
O outro toque veio quando fiz uma reunião de amigos na minha casa. Nāo precisei pegar um CD para tocar e animar a festa. Nós tinhamos o universo das plataformas no meu smartphone, eu e meus amigos com os deles, e cada um foi tocando ao seu tempo o repertório que gostaria de dividir com os demais.

Meu zen

Há aspectos bem interessantes nessa nova realidade de compra e audição de música que pode favorecer aos artistas independentes. A primeira coisa é o barateamento dos custos. Neste processo evita-se os gastos com a prensagem de no mínimo mil CDs de venda nāo garantida.
A economia com adiantamentos das editoras também é um adianto, já que as plataformas se responsabilizam por esta remuneração.
Isso é importante porque nāo é fácil nos dias de hoje você recuperar o investimento na gravação de um disco com a venda de CDs. O CD está cada vez mais sendo considerado um cartão de visitas de luxo, as plataformas sāo um cartão para o mundo inteiro a custos bem menores, onde até um voz e violão dá o maior pé.

A facilidade do acesso do ouvinte aos nossos trabalhos também é interessante. Mande um WhatsApp, uma mensagem no Facebook, o cara clica no link e já sai ouvindo teu disco novo enquanto faz as compras no supermercado. Parar hoje em dia para se ouvir música é raro, está no plano dos momentos de reflexão, meditação, como a música merece.
Minha observação é que várias plataformas estão hoje a nossa disposição e a gente sabendo como combiná-las poderá nos ser muito útil nesse momento em que nāo sabemos para que lado as coisas vāo. Ficarāo como estāo? Avançarāo ou todo o processo de gravação de música passará por um retrocesso no plano da  profissionalização?

Meu mal

Como nem tudo é perfeito as plataformas têm problemas. Nāo ter a ficha técnica dos álbuns é lamentável, mas isso pode ser resolvido através do site pessoal do artista.
A perda definitiva da experiência com o trabalho gráfico associada ao áudio é outro lamento.
A remuneração é outro ponto. Assim como o “cinema que é a melhor diversão pra quem faz”, as plataformas digitais sāo o melhor negócio para quem é o dono. Se eu vender uma faixa do meu CD no Itunes nāo é nada. Se o Itunes vender uma faixa de cada CD lá disponibilizado é o bicho.
As questões sobre direitos de execução ainda sāo pendências, conexos dos músicos e intérpretes então, nem pensar.

Mas esse é o limão que temos para nossa limonada neste 2016 e vamos caprichar nela.
Entāo, caro leitor, acesse sua plataforma preferida e tome contado com os trabalhos produzidos por mim. Você pode encontra-los todos juntinhos lá no meu site em www.claudiojorge.com
Prestigie a música brasileira, prestigie o artista independente, prestigie a você, ao seu espírito fazendo pelo menos a audição destes trabalhos, compre se desejar, mas ouça, minha inspiração agradece.




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