20/11/2014

20 de novembro: O Brasil e sua inconsciência negra


Acordei nessa manhã ensolarada deste 20 de novembro de 2014 com uma pergunta que soou em mim como um despertador:  somos todos nós os brasileiros (aqueles que viviam do comércio de pau brasil) herdeiros do trono português no Brasil? A resposta é fácil: Não. Uma outra pergunta me veio em seguida: são todos os brasileiros identificados com os seus reis e rainhas colonizadores, como são os ingleses com sua rainha? Claro que não. 
Hoje em 2014, depois de muita violência, estupros,  romances proibidos, torturas, Lei Áurea, eterna perseguição policial, discriminação, racismos velados ou explícitos e uma cansativa discussão  sobre a validade ou não da política de cotas, finalmente chegamos ao Dia da Consciência Negra de 2014 com uma população brasileira formada por cinquenta e três  porcento de "pretos" e "pardos", autodeclarados segundo o IBGE. Estes seguimentos formam aquilo a que chamamos, por questões políticas, de "população negra". É possível que essa população aumente tendo em vista que as pessoas estão perdendo a "vergonha" de suas origens enquanto  descendentes de escravos negros e índios. Mas ela também pode diminuir no futuro, por conta na nossa história nas últimas décadas.

Sei que 126 anos de história é quase nada, então a abolição da escravatura foi praticamente ontem e ainda não deu tempo para as coisas ficarem exatamente esclarecidas em relação a este assunto. Mas o Brasil é o país das urgências que vai convivendo com suas contradições ao mesmo tempo que inventa o avião. Não tem telefone fixo para todos,  mas quase todos têm um celular ou mais e etc.

Acredito que ainda hoje o Brasil, enquanto noção de nação, viva o dilema de não saber como quer aparecer na foto para o mundo.  Um país africano nas Américas, um país europeu nas Américas  ou, o que seria o ideal, juntar estes dois Brasis com o dos índios brasileiros, os primeiros donos dessa terra.

O Brasil está correndo o risco de não posar para a terceira opção de foto porque a resistência dos donos da máquina digital para abrirem espaço  na cena para negros e índios é muito grande, e o resultado disso é que vamos fazendo os nossos selfs, seguindo em frente, a despeito da corrente contrária.

O Brasil corre o risco de ver um dos personagens da cena se sobrepor aos demais porque há em curso  um antigo projeto de "legitimação" do que chamavam antigamente de "status  quo" : a coisa é assim mesmo. Negros e brancos não têm direitos profissionais e de cidadania iguais, mas convivem em "harmonia" daqui até a eternidade, esperando as coisas melhorarem para uns enquanto não param de melhorar para outros. Enquanto isso a cultura brasileira, encontro das três raças, vem vivendo um processo de americanização insuportável, as perseguições as religiões de matrizes africanas já adquiriram forma de terrorismo  e o genocídio que atinge os jovens negros no Brasil chega a níveis incríveis num país que se diz democrático.

Recente documento da ONU classificou o racismo no Brasil como sendo estrutural e institucional. Isso pra mim soa como um desagradável  "não tem mais jeito".

Nessa pegada, corremos o risco de ver legitimada, em breve, a superioridade de uma parte da população sobre a outra. É lógico que não é o que eu quero, muita gente não quer, muitos querem. Mas já não tenho esperanças em relação  ao sonho da democracia racial no Brasil, com todas as suas maravilhosas consequências de direitos iguais para todos os cidadãos.
O fato é que  nós negros precisamos muito mais do que um palco, um campo de futebol ou o tesouro de nossas preciosas amizades conquistadas, afetos e relações amorosas, independente de raça e credo, da maneira como parte da nossa sociedade vem maravilhosamente praticando.

Neste 20 de novembro de 2014 me sinto como aquele bandido que foi encurralado num conjunto habitacional décadas atrás. Só,  com suas armas e um montão de polícia esperando por ele do lado de fora. Só saiu morto, mas saiu atirando.

Só que meus tiros  vêm das minhas músicas, do meu violão, dos meus mal traçados textos. Vem dos beijos que dou na face de meus amigos de todas as cores. Vem do meu amor que sinto por minha mulher branca de corpo e negra de cabeça. Vem do meu amor pelo meu filho mestiço, tipo louro. Meus tiros vêm da minha vontade cada vez maior de falar sobre esse assunto, embora reconheça o desconforto que causa em alguns amigos meus. Meu tiros saem dos meus lábios ao beijar a mão de todos os negros que se envolveram nessa causa, que morreram por essa causa.
Meus tiros saem do meu abraço fraterno em Marcelinho Moreira, Ovídio Brito, Zero, Cuscus, Wilson Moreira, Carlinhos Sete Cordas e Efson,  os amigos mais  pretos de pele que eu tenho. Se esqueci de algum é porque me deu um branco.
Meus tiros vão em forma de respeito e reverência àqueles sambistas que sustentaram para o Brasil a alegria de viver, herança africana compartilhada por todos os brasileiros.
Meus tiros, enfim, vão em forma de palmas de partido alto para Nei Lopes, Abdias Nascimento, Martinho da Vila, Candeia, Luiz Carlos da Vila, Lima Barreto, Joel Rufino, Mestre Didi, Gilberto Gil e tantos outros. 

Cada um, a seu jeito, deu sequência a grandeza do maior brasileiro de todos os tempos,  Zumbi dos Palmares.

3 comentários:

Ricardo Santos disse...

É poeta, a caminhada é longa, ainda se vê nos murais das redes antissociais muita gente (e negro junto) questionando da legitimidade do 20 de Novembro

Aguiarsan disse...

Prezado Mestre Cláudio Jorge:

O Brasil tem uma história extremamente complexa. Para os europeus ele foi descoberto, para os nativos ele foi invadido. Descoberto por um estrangeiro, a independência feita por um herdeiro do trono colonizador, a república por um marechal monarquista, uma série de ditaduras como a de Floriano, Vargas e de Militares. Heróis são aqueles que lutaram por uma causa. Vemos heróis esquecidos por patrulhamentos ideológicos como Pedro Lessa, Hermenegildo de Barros e Luís Gama. Talentos como André Rebouças, Antonio Rebouças (pai e filho) e João Cândido Felisberto. De fato sua colocação sobre a História de 514 anos de descoberta (ou invasão), de 200 anos de Estado Brasileiro (1815-2015 quando foi Reino Unido), de 192 de independência administrativa (pois depende até hoje dos outros), de 126 da Lei Áurea que libertou por um lado aprisionando por outro e 125 de uma república de oligarcas. Vale citar que temos apenas 26 anos de uma Constituição que ao menos tenta resgatar a dignidade e a honra de todos sem distinção, mas que a nível histórico ainda precisa evoluir mundo.

Joaquim Eleuterio disse...

Gostei muito do texto que descreve uma situação complexa.

Na escola, quando era menino, aprendi que os índios não foram bons nem para serem escravos pois morriam aos montes. Os negros, que substituíram os índios na escravidão, eram incultos, covardes, fracos, preguiçosos, e subservientes. Portanto, ambos pouco contribuíram para a formação do Brasil.

Aprendi mais sobre a Guerra das Rosas na Inglaterra do que sobre Canudos ou Zumbi dos Palmares.

Fui formado para ser mais um Europeu nos trópicos, de férias no Brasil desde 1500. Porém, ao olhar-me no espelho, eu via um negro-indígena-branco. Tentava desesperadamente acreditar na democracia racial. Era só estudar e ter paciência. O meu dia iria vir. Porém, a cada passo que eu dava na escada, sempre encontrava o mesmo teto. Não era de vidro. Era de cimento armado.

Então não aguentei e fugi dessa nova escravidão. Fui procurar respostas em outras praias. So que lá, no meu exílio, tive que engolir que eu não passava de um negão. Era a mesma coisa que no Brasil, só que dita de uma forma mais direta e brutal; despida de ilusões e hipocrisias. Paradoxalmente, quando fiz as pazes com a minha cor, tive mais oportunidades do que se tivesse ficado no Brasil acalentando um sonho que na verdade não,passava de um pesadelo.