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Que loucura! Nas nuvens


Estou eu mais uma vez a bordo uma aeronave, dessa vez, vindo de Goiânia para o Rio com escala em Sampa.
A fatídica barrinha de cereal não é mais servida na Gol, mas em compensação o lanche do avião agora é vendido por preços que acompanham a altitude, lá nas nuvens, onde uma latinha de cerveja estupidamente custa cinco reais. Gastei estes cinco reais e a latinha me provocou reflexões e uma lembrança.
A mente humana realmente é uma coisa fascinante, e dependendo do dono dessa mente, ela pode levar aos pensamentos mais maravilhosos, absurdos, impossíveis e, às vezes, até realistas. Veja só o que aconteceu comigo.
Agora, enquanto novo morador da zona oeste, estou tendo que me adaptar as peculiaridades da região e uma delas, pelos menos no bairro em que estou morando, é a facilidade de encontrar bons restaurantes com preços mais adaptáveis a diária de músico.
Eu sou daqueles que, na maioria das vezes, almoça fora e vivo variando de restaurante o tempo todo para não enjoar da comida. Lá em casa eu e a patroa quando temos que fazer alguma coisa no fogão  tiramos primeiro os vasos de planta de cima dele.
Numa dessas experiências culinárias fui parar num restaurante que funciona lá no Polo de Cinema e Vídeo. Comida caseira, preço bom, mas com aquela outra característica da zona oeste, tem que ir de carro.
Fui, estacionei, me servi do self service, e na hora de pagar, a moça não tinha cinco reais de troco para me dar. Tudo foi resolvido com um vale nesse valor para eu utilizar num outro dia.
Dias depois descobri mais dois lugares perto de casa pra rangar e o vale ficou rolando no fundo da bolsa.
Essa região da, "força barra", como minha mulher costuma chamar, que é aquele lugar perdido entre a Barra e Jacarepaguá, é surpreendente. Entrei numa rua outro dia, logo depois do Polo e dei de cara com um conjunto comercial de cinco prédios, estacionamento a seis reais a hora e um montão de restaurantes, agência bancária e tudo mais. Passando direto de carro pela Abelardo Bueno ninguém vê nada. Ao mesmo tempo, num outro cantinho, um lugar especializado em codorna. Muito louco.
Falando em loucura e voltando para o assunto das armadilhas da nossa mente, resolvi, um mês depois,  retornar naquele restaurante que tinha me dado um vale, pra dar aquela variada, como falei.
Estacionei, me servi no self service, sentei e comecei a pensar:
Faz um bocado de tempo que a dona me deu aquele vale, é capaz dela não lembrar. Vou chegar lá no caixa, a atendente que não é a mesma que me deu o vale vai me perguntar aonde eu consegui aquele papel. Vou explicar que foi a dona do restaurante que me deu, ela vai dizer que não está reconhecendo a assinatura, eu vou começar a me irritar perguntando o que ela quer dizer com isso. Você está insinuando que eu falsifiquei um vale de cinco reais? Ela disse que não, mas que aquilo não é comum acontecer na casa. Vou  ficando mais irritado ainda,  e digo para ela que me admirava muito ela sendo uma negra ter uma atitude preconceituosa com um irmão da cor. 
Ela diz que não é minha irmã coisíssima  nenhuma, que nunca me viu mais magro e as trinta pessoas que estão atrás de mim na fila começam a reclamar do meu comportamento, que eu tô criando caso e tudo mais. Alguém ameaçou chamar o segurança e eu rasguei a droga do vale, paguei a conta, e saí  bufando do restaurante dizendo que nunca mais iria voltar naquela espelunca.
Acabo de comer, p. da vida e quando eu estou me levantando para me dirigir ao caixa ouço uma voz lá do fundo do restaurante: Sr. O Senhor tem um vale de cinco reais para receber, não é mesmo?
Rindo sozinho respondo que sim, a senhora não entende nada, eu pago usando o vale  e eu vou me embora pensando com meus botões. Eu sou um merda mesmo.

Comentários

Eli disse…
Isto é que é preconceito meu irmão, com todo respeito. Motumbá!

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